Lisboa por estes dias...

... é só saudade, deste lado.
Não é aquela saudade triste, é a de ter boas memórias.
Lisboa, que me parece cada vez mais distante. Lisboa que foi tão minha. Lisboa que eu percorria quase sempre a pé, especialmente depois das aulas quando descia da Cidade Universitária à Avenida da República e depois a descia até ao Saldanha, seguindo para a Fontes Pereira de Melo até Picoas e à minha Andrade Corvo. Tive a sorte de me calhar ter entre casa e escola uma geografia perfeita, estava tudo no sítio certo.
Ainda mais nesta altura em que as tardes eram passadas ali em baixo, no Parque Eduardo VII. Tantas, tantas tardes, ora com colegas dos estudos, ora com as de casa, ora sozinha. Que naquela cidade encantada feita de casas de livros nunca se está realmente sozinho.
Foi ali que, numa volta, vi uma fila enorme, enooorrrrmmmmeeeee. Fui experimentar o autor. Uma sorte de uma volta que descobri Mia Couto e nunca mais o deixei. Ganhou o lugar de eleição no meu coração literário. Mais tarde descobri porquê. Escreve como quem nasceu no Moçambique em que nasceu quem mais tarde veio a ser o homem da minha vida. E tudo ficou claro. Aquela poesia de se ser pessoa que nasceu em Moçambique é qualquer coisa... que sai dos livros e nos encanta.
Lisboa por estes dias eram as noite(ada)s no Santo António. Tanta gente, tanta sardinha, tanta sangria, ou cerveja, mas sou mais sangria. E música popular que incrivelmente me trazia a casa.
Tanta moeda atirada à fonte frente à estátua do querido Santo António. E que bem atiradas, as moedas. Que o Santo foi muito meu amigo e me trouxe um homem que lhe chega a ter o nome, só para eu perceber que tinha ali mão dele. O engraçadinho!
Lisboa por estes dias são sorrisos de boas memórias. Mesmo boas.
Lisboa trouxe-me a Gralha e, por estes (e todos os) dias, sempre a sua companhia. Sim, às vezes estudávamos. Mas aquela Lisboa do Parque a Santa Apolónia era toda nossa, dia e noite, cultura e diversão.
Lisboa por estes dias volta a encher-me o coração.

Tenho obviamente que referir a Lisboa que me fazia sonhar com aquilo do ser-se jornalista. Aquele prédio imponente onde se lia Diário de Notícias no cimo da Avenida da Liberdade comovia-me sempre, puxava-me pelo querer, aquele querer ser jornalista tão presente em mim toda a vida. Tê-lo tão perto de casa fazia-me sonhar. E aquele respeito que sentia quando passava à porta e via alguém entrar e sair. Sentia quase uma reverência. A minha vida profissional nunca se cruzou com o DN, mas tinha-lhe mesmo muito respeito. Provavelmente algumas das pessoas com quem me cruzei à porta e que representavam para mim uma vida de sonho, perderam esta semana o seu sonho. Lisboa por estes dias deixa-me também triste. Não era só o prédio, era o conceito. Que morreu. Que vai morrendo.
A DNA foi, como é hoje a Notícias Magazine, a minha revista de eleição. Gosto de revistas que não estão nas bancas sozinhas, que não precisam de gritar impropérios para que as vejamos, que nos trazem informação, informação mesmo, coisas boas de ler. O irónico é que hoje, hoje mesmo, não me consigo lembrar bem daquele prédio que exercia tanta magia em mim.

Lisboa por estes dias... é isto.

1 comentário:

  1. São os dias mais lisboetas de Lisboa, e aqueles em que mais sinto a tua falta. Um grande abraço com saudades, minha amiga.

    (os nossos meninos também já lhe ganharam o gosto)

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